O DISCURSO DE RUI BARBOSA NO SENADO EM 1914
A falta de justiça, Srs. Senadores, é o grande mal da nossa terra,
o mal dos males, a origem de todas as nossas infelicidades, a fonte de todo nosso
descrédito, é a miséria suprema desta pobre nação.
A sua grande vergonha diante do estrangeiro, é aquilo que nos afasta
os homens, os auxílios, os capitais.
A injustiça, Senhores, desanima o trabalho, a honestidade, o bem;
cresta em flor os espíritos dos moços, semeia no coração das gerações que vêm nascendo
a semente da podridão, habitua os homens a não acreditar senão na estrela, na fortuna,
no acaso, na loteria da sorte, promove a desonestidade, promove a venalidade, promove
a relaxação, insufla a cortesania, a baixeza, sob todas as suas formas.
De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos
dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha
de ser honesto.
Essa foi a obra da República nos últimos anos. No outro regime, o
homem que tinha certa nódoa em sua vida era um homem perdido para todo o sempre,
as carreiras políticas lhe estavam fechadas. Havia uma sentinela vigilante, de cuja
severidade todos se temiam e que, acesa no alto, guardava a redondeza, como um farol
que não se apaga, em proveito da honra, da justiça e da moralidade gerais.
Na República os tarados são os tarudos. Na República todos os grupos
se alhearam do movimento dos partidos, da ação dos Governos, da prática das instituições.
Contentamo-nos, hoje, com as fórmulas e aparência, porque estas mesmo vão se dissipando
pouco a pouco, delas quase nada nos restando.
Apenas temos os nomes, apenas temos a reminiscência, apenas temos
a fantasmagoria de uma coisa que existiu, de uma coisa que se deseja ver reerguida,
mas que, na realidade, se foi inteiramente.
E nessa destruição geral de nossas instituições, a maior de todas
as ruínas, Senhores, é a ruína da justiça, colaborada pela ação dos homens públicos,
pelo interesse dos nossos partidos, pela influência constante dos nossos Governos.
E nesse esboroamento da justiça, a mais grave de todas as ruínas é a falta de penalidade
aos criminosos confessos, é a falta de punição quando se aponta um crime que envolve
um nome poderoso, apontado, indicado, que todos conhecem ..."
(Rui Barbosa - Discursos Parlamentares - Obras Completas - Vol. XLI
- 1914 - TOMO III - pág. 86/87)
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